EU como a maioria das pessoas carrego tendências multifocais. Estive sendo formiga por grande parte da minha vida. Na escola, na família, em sociedade. Bem comportada, mesmo resmungando às vezes. Gostava da escola, sempre gostei de escola. E ao crescer fui trabalhar como todo mundo que precisa ganhar a vida. Fui ser bancária...me adaptei ao formigueiro, cheio de carimbos, recibos, máquinas de escrever,de somar, telefones...meu lado cigarra ficava para as horas livres do trabalho e da faculdade. Tinha vontade de ser musicista ou cantora, mas me contentei em comprar discos. Gostaria de ter sido bailarina mas virei espectadora. Adorava escrever, virei leitora, o desejo de ser cineasta me transformou em cinéfila...sempre do lado de cá, a formiga espiando as cigarras, pagando ingresso para vê-las. E para ser uma formiga culta era preciso acompanhar as cigarras, as cigarras escritoras, artistas de todas as artes...
Hoje sou uma formiga aposentada, usufruindo dos valores acumulados no formigueiro, aquelas folhas cortadas e carregadas na cabeça para alimentar uma rainha grandalhona e procriadora. Com as migalhas me estabeleci num apartamento, com livros, discos e conforto. Tenho o que comer e como pagar minhas contas...mas agora nem tenho mais vontade de brincar de cigarra...muitas cigarras se revelaram vazias, com brilho artificial, com vozes desafinadas, com obras exibicionistas e sem muito recheio...Não, não é inveja de formiga bancária frustrada. É só maturidade. Nem cigarra, nem formiga.
Revolucionário do flamenco, violonista Paco de Lucía morre aos 66
O violonista espanhol Paco de Lucía morreu nesta quarta-feira (26), em Cancún, no México, vítima de um ataque cardíaco.
A morte do artista, que tinha 66 anos, foi anunciada pelo gabinete de imprensa da Prefeitura de Algeciras, sua cidade natal, na província de Cádiz, no sul da Espanha. A cidade decretou três dias de luto pela perda do "maior violonista de todos os tempos".
Em comunicado oficial, a família do músico diz que "não há consolo nem para os que o conheciam, nem para os que o amavam, sem conhecê-lo". Segundo eles, De Lucía "viveu como quis" e morreu brincando com seus filhos "ao lado do mar". O músico teria passado mal subitamente e morrido a caminho do hospital. "Boa viagem nosso amado", concluem. O artista, que teve cinco filhos, atualmente era casado com Gabriela Carrasco.
Paco de Lucía foi um dos maiores expoentes da música flamenca. A partir dos anos 1960, o artista revolucionou o estilo, então "uma música de museu", com a introdução de novas influências, como o jazz e a bossa nova.
Em 2004, ele recebeu o Prêmio Príncipe das Astúrias das Artes, reconhecimento do governo espanhol à sua contribuição para a cultura. De Lucía era também doutor honoris causa pela Universidade de Cádiz e pelo Berklee College of Music de Boston.
No último mês de novembro, o artista havia feito três apresentações no país —Rio, São Paulo e Porto Alegre. O espanhol não vinha ao Brasil há 16 anos —"porque é muito longe", disse ele, acostumado a tocar especialmente na Europa, à Folha, na época dos shows.
"Abri uma porta para que entrasse ar, com muito respeito à tradição, mas não obediência, o que é muito diferente", disse à reportagem sobre a revolução que promoveu no flamenco. "Por que contar as coisas com dez palavras se você pode usar cem?", comentou sobre a mistura de ritmos que apreciava.
A morte do músico representa "uma perda irreparável para o mundo da cultura, para a Andaluzia", declarou o prefeito de Algeciras, José Ignacio Landaluce. O corpo do músico deve ser enterrado na sua cidade natal.
"A morte de Paco de Lucía transforma o gênio em lenda. Seu legado perdurará para sempre, assim como o carinho que sempre mostrou por sua terra. Apesar dele ter partido, sua música, sua maneira genial de interpretar, seu caráter, sempre estará entre nós", afirmou ainda o prefeito no comunicado.
CARREIRA PRECOCE
Francisco Sánchez Gómez, mais conhecido pelo seu nome artístico, começou a carreira aos 12 anos, quando formou o dueto Los Chiquitos, com seu irmão Pepe nos vocais. O violonista gostava de lembrar que devia a carreira ao pai, Antonio Sánchez, um cantor de flamenco desconhecido.
"Os ciganos são melhores porque escutam a música desde que nascem. Se não tivesse nascido na casa de meu pai, eu não seria ninguém hoje. Não acredito no gênio espontâneo. Meu pai me obrigou a tocar violão desde que era criança", afirmou no livro "Paco de Lucía - Una Nueva Tradición para la Guitarra Flamenca". "Ele [o pai] perguntava 'durante quanto tempo você praticou?'. Eu respondia 'dez ou 12 horas' e via sua cara de felicidade", contou.
O músico, no entanto, dizia não gostar de fazer exercícios tradicionais no instrumento. "Isso de ficar fazendo exercícios no violão é muito chato, me deixa nervoso, me perturba", contou à Folha em novembro passado. Paco, no entanto, era rigoroso antes dos shows: chegava duas horas antes para aquecer as mãos no instrumento.
Com carreira precoce, De Lucía aos 15 anos já colaborava em gravações de discos em Madri e, quando atingiu a maioridade, assinou contrato para seu primeiro álbum.
Na época, conheceu outro músico que virou um mito do flamenco moderno, o cantor Camarón de la Isla (1950-1992), com quem fez grandes colaborações ao longo da carreira.
A morte do artista, que tinha 66 anos, foi anunciada pelo gabinete de imprensa da Prefeitura de Algeciras, sua cidade natal, na província de Cádiz, no sul da Espanha. A cidade decretou três dias de luto pela perda do "maior violonista de todos os tempos".
Em comunicado oficial, a família do músico diz que "não há consolo nem para os que o conheciam, nem para os que o amavam, sem conhecê-lo". Segundo eles, De Lucía "viveu como quis" e morreu brincando com seus filhos "ao lado do mar". O músico teria passado mal subitamente e morrido a caminho do hospital. "Boa viagem nosso amado", concluem. O artista, que teve cinco filhos, atualmente era casado com Gabriela Carrasco.
Paco de Lucía
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O violonista Paco de Lucía durante show em Lisboa em novembro de 2007
Em 2004, ele recebeu o Prêmio Príncipe das Astúrias das Artes, reconhecimento do governo espanhol à sua contribuição para a cultura. De Lucía era também doutor honoris causa pela Universidade de Cádiz e pelo Berklee College of Music de Boston.
No último mês de novembro, o artista havia feito três apresentações no país —Rio, São Paulo e Porto Alegre. O espanhol não vinha ao Brasil há 16 anos —"porque é muito longe", disse ele, acostumado a tocar especialmente na Europa, à Folha, na época dos shows.
"Abri uma porta para que entrasse ar, com muito respeito à tradição, mas não obediência, o que é muito diferente", disse à reportagem sobre a revolução que promoveu no flamenco. "Por que contar as coisas com dez palavras se você pode usar cem?", comentou sobre a mistura de ritmos que apreciava.
A morte do músico representa "uma perda irreparável para o mundo da cultura, para a Andaluzia", declarou o prefeito de Algeciras, José Ignacio Landaluce. O corpo do músico deve ser enterrado na sua cidade natal.
"A morte de Paco de Lucía transforma o gênio em lenda. Seu legado perdurará para sempre, assim como o carinho que sempre mostrou por sua terra. Apesar dele ter partido, sua música, sua maneira genial de interpretar, seu caráter, sempre estará entre nós", afirmou ainda o prefeito no comunicado.
CARREIRA PRECOCE
Francisco Sánchez Gómez, mais conhecido pelo seu nome artístico, começou a carreira aos 12 anos, quando formou o dueto Los Chiquitos, com seu irmão Pepe nos vocais. O violonista gostava de lembrar que devia a carreira ao pai, Antonio Sánchez, um cantor de flamenco desconhecido.
"Os ciganos são melhores porque escutam a música desde que nascem. Se não tivesse nascido na casa de meu pai, eu não seria ninguém hoje. Não acredito no gênio espontâneo. Meu pai me obrigou a tocar violão desde que era criança", afirmou no livro "Paco de Lucía - Una Nueva Tradición para la Guitarra Flamenca". "Ele [o pai] perguntava 'durante quanto tempo você praticou?'. Eu respondia 'dez ou 12 horas' e via sua cara de felicidade", contou.
O músico, no entanto, dizia não gostar de fazer exercícios tradicionais no instrumento. "Isso de ficar fazendo exercícios no violão é muito chato, me deixa nervoso, me perturba", contou à Folha em novembro passado. Paco, no entanto, era rigoroso antes dos shows: chegava duas horas antes para aquecer as mãos no instrumento.
Com carreira precoce, De Lucía aos 15 anos já colaborava em gravações de discos em Madri e, quando atingiu a maioridade, assinou contrato para seu primeiro álbum.
Na época, conheceu outro músico que virou um mito do flamenco moderno, o cantor Camarón de la Isla (1950-1992), com quem fez grandes colaborações ao longo da carreira.